Em 1973, em plena ditadura militar brasileira, os músicos Chico Buarque e Gilberto Gil se reuniram para compor uma canção que expressasse a dor, o silêncio imposto pela censura e a resistência de um povo sufocado. Assim nasceu “Cálice”, uma música que, além de seu título remeter ao cálice bíblico do sofrimento, também carrega um trocadilho poderoso: “cálice” soa como “cale-se”, um grito abafado contra a repressão. A canção foi censurada em apresentações públicas e só pôde ser lançada oficialmente em 1978, tornando-se um símbolo da luta pela liberdade de expressão.

Mais de cinquenta anos depois, “Cálice” voltou ao centro das atenções, desta vez por causa de uma acusação de plágio. A cantora argentina Paz Lenchantin, ex-integrante da banda Pixies, lançou a música “Hang Tough”. Representantes de Chico Buarque e Gilberto Gil afirmaram que a canção apresenta uma melodia muito semelhante à de “Cálice”. A suspeita levou os compositores, por meio da editora que administra seus direitos autorais, a notificarem a artista por uso não autorizado. Embora ainda não exista decisão judicial nem laudo técnico definitivo, a semelhança apontada por fãs e críticos levantou um intenso debate sobre criação e ética na música.

O plágio ocorre quando alguém copia, total ou parcialmente, uma obra protegida por direitos autorais sem dar os devidos créditos ou obter permissão. Pode envolver letra, melodia, harmonia ou arranjos. Mesmo que não seja intencional, o plágio é considerado uma violação legal e também moral, porque nega o reconhecimento devido a quem realmente criou.
Compare as músicas, perceba as semelhanças e reflita sobre ética e criação musical | Clickideia
Na arte, é comum que músicos se inspirem uns nos outros. Mas há uma linha tênue entre influência e apropriação indevida. A ética na criação musical exige respeito à originalidade e ao trabalho alheio. Reconhecer influências, pedir autorização e dar os créditos são atitudes que demonstram integridade e valorizam a cultura.
O caso envolvendo “Cálice” e “Hang Tough” mostra que, mesmo décadas depois, a música continua sendo uma ferramenta poderosa — seja para denunciar injustiças, seja para lembrar que a ética deve acompanhar a criatividade. Afinal, criar é também assumir a responsabilidade pelo que se compartilha com o mundo.




