TODOS ESTÃO MESMO CONECTADOS? A BNCC COMPUTAÇÃO E OS DESAFIOS DAS DESIGUALDADES NO ACESSO ÀS TECNOLOGIAS

Quando a gente fala em mundo digital, quase sempre parte de uma ideia confortável: a de que todo mundo está conectado. Como se o acesso fosse algo dado, natural, presente na vida de todos. Mas essa percepção não resiste por muito tempo quando olhamos para a realidade com mais atenção.
Embora a conexão faça parte do cotidiano de muitas pessoas, para outras tantas navegar por ambientes virtuais ainda não é algo concreto. Dados de 2024 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que mais de 20 milhões de brasileiros seguem fora desse universo. Quando observamos a pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (2024), o cenário se torna ainda mais sensível: cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes, entre 9 e 17 anos, não têm acesso garantido a essas formas de participação no mundo de hoje.
Para muitos estudantes, portanto, estar conectado não é um ponto de partida. É uma ausência. E isso muda tudo. Muda a forma como aprendem, como se informam e, principalmente, o papel que a escola e o professor passam a ocupar nesse processo.
A BNCC Computação, reconhecendo esse cenário, chega para fortalecer o papel da escola como espaço de aprendizagem para a vida. Ela ajuda a transformar acesso em compreensão, informação em conhecimento e tecnologia em possibilidade de participação. Em contextos de desigualdade, isso faz ainda mais diferença, porque amplia caminhos e reforça a escola como lugar onde todos podem aprender e se desenvolver.
Nem todos começam do mesmo lugar. O problema não está apenas na falta de acesso, mas na desigualdade que ela revela. A pesquisa do IBGE também indica que, enquanto nas classes A e B a conexão é praticamente universal, nas classes D e E esse índice cai para 91%. À primeira vista, a diferença pode parecer pequena. Na prática, ela é profunda. Significa que nem todos chegam à escola com as mesmas oportunidades, referências e possibilidades de participação nesse cenário que atravessa a vida de hoje.
Há ainda outro aspecto que aprofunda esse quadro: a qualidade da conexão. Enquanto famílias com maior renda vivem em locais com mais infraestrutura e conseguem contratar serviços mais estáveis, muitas famílias de menor renda têm no celular a única forma de acesso. Nesses casos, os pacotes de dados costumam ser limitados e se esgotam rapidamente. É comum, ainda, que empresas de telefonia móvel ofereçam acesso gratuito a alguns aplicativos, o que acaba direcionando parte da população para um uso mais restrito da rede. Esse cenário limita experiências, dificulta aprendizagens e reduz oportunidades que poderiam ampliar caminhos pessoais e profissionais.
Mesmo quando o acesso à internet existe, isso não significa, necessariamente, que as pessoas saibam usá-la com autonomia. Dados recentes mostram que esse é um dos grandes desafios do nosso tempo. Segundo informações da Anatel, apenas cerca de 3 em cada 10 brasileiros possuem habilidades digitais básicas, como enviar um e-mail, organizar arquivos ou usar ferramentas simples no computador ou no celular.

Isso ajuda a entender por que, para muita gente, estar conectado não se transforma automaticamente em aprendizagem, trabalho ou novas oportunidades. A dificuldade não está apenas em entrar na rede, mas em saber o que fazer dentro dela. Ler informações, interpretar conteúdos, comparar dados, identificar o que é confiável e tomar decisões conscientes ainda são tarefas difíceis para grande parte da população.
As informações de pesquisas recentes ajudam a entender melhor esse cenário. Dados do IBGE mostram que os usos mais comuns da internet no Brasil estão ligados à comunicação e ao consumo de conteúdos. Mais de 90% dos usuários utilizam a rede para enviar mensagens, fazer chamadas de voz ou vídeo, acessar redes sociais e assistir a vídeos. Esses usos aparecem com muito mais frequência do que atividades ligadas ao estudo ou à formação.
Levantamentos do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic) reforçam esse padrão ao indicar que assistir a vídeos (77%), ouvir música (76%) e jogar online estão entre as práticas mais recorrentes no uso da internet no país. O uso para aprendizagem existe, especialmente em atividades escolares, mas ainda aparece de forma menos constante quando comparado ao tempo dedicado ao entretenimento e à comunicação.
Portanto, é possível entender que a desigualdade digital não se resume à falta de acesso, mas também à falta de preparo para usar a tecnologia de forma significativa. E é justamente aí que a escola ganha ainda mais importância. Um espaço onde aprender a usar a tecnologia pode ir além do entretenimento e se transformar em compreensão, autonomia e participação social.

QUANDO A ESCOLA SE TORNA PONTO DE PARTIDA
Em um cenário marcado por desigualdades de acesso e de uso, a escola passa a ocupar um lugar ainda mais importante. Ela oferece contato com tecnologias e cria condições para que os estudantes aprendam a entender o mundo em que vivem. É na escola que o acesso pode se transformar em aprendizagem, e a informação, em conhecimento.
Trabalhar com tecnologia na educação é ensinar a usar ferramentas, mas também ajudar a organizar ideias, analisar situações, fazer escolhas e compreender processos de forma crítica. São aprendizagens que atravessam diferentes áreas do conhecimento e que dialogam diretamente com a vida cotidiana, o trabalho e a participação social. Em muitos casos, esse trabalho já acontece há anos nas escolas, conduzido por professores que, mesmo antes de nomear essas práticas como “pensamento computacional”, sempre ajudaram estudantes a pensar, resolver problemas e tomar decisões de forma consciente.
Reconhecer isso é importante porque desloca o olhar da novidade para a continuidade. A escola não começa do zero quando fala de tecnologia, nem os professores precisam abandonar o que já fazem para dar lugar a algo completamente novo. A BNCC Computação chega mais como reconhecimento e organização de práticas existentes do que como ruptura, ajudando a dar nome, sentido e intencionalidade pedagógica a aprendizagens que já fazem parte do cotidiano escolar.
Quando a escola assume esse papel, ela se fortalece como espaço de mediação e de construção coletiva do conhecimento. Não se trata de acompanhar modismos ou correr atrás de tecnologias, mas de valorizar o que já acontece em sala de aula e ampliar suas possibilidades. Em contextos marcados por desigualdades, esse movimento é ainda mais importante, porque reafirma a escola como lugar onde todos podem aprender, independentemente das condições de acesso fora dela.
É a partir dessa compreensão que documentos como a BNCC Computação ganham sentido.
ENTENDENDO A BNCC COMPUTAÇÃO
A BNCC Computação é um complemento da Base Nacional Comum Curricular que passou a orientar de forma mais clara o trabalho com tecnologia e pensamento computacional na educação básica a partir de 2022. Ela aparece em um momento em que a tecnologia já faz parte da nossa vida: está no trabalho, nas conversas, nas escolhas do dia a dia e também na escola.
A BNCC Computação parte de uma ideia simples: não basta ter acesso à tecnologia. É preciso aprender a usá-la com consciência, entendendo para que serve, como funciona e quais escolhas fazemos ao usá-la. O que se aprende na escola precisa dialogar com a vida fora dela.

Quando falamos em pensamento computacional, não estamos falando apenas de computadores, programação ou internet. Estamos falando de aprender a pensar melhor. De organizar ideias, analisar situações, buscar soluções, testar caminhos e avaliar resultados. Lembre que isso tudo já acontece em muitas salas de aula, mesmo quando não recebe esse nome.
Na prática, o pensamento computacional aparece em situações bem comuns:
- Quando estudantes planejam as etapas de uma atividade.
- Comparam diferentes formas de resolver um problema.
- Organizam informações.
- Explicam como chegaram a uma resposta.
- Refletem sobre decisões que tomaram.
Perceba que são ações simples, mas muito importantes para aprender com mais autonomia.
Esse trabalho pode acontecer com ou sem o uso de tecnologias digitais. Jogos, desafios, projetos em grupo, debates, atividades de organização e resolução de problemas fazem parte desse processo. O mais importante não é a ferramenta, mas o modo de pensar que se constrói ao longo do caminho.
Ao olhar para essas práticas com mais atenção, a BNCC Computação fortalece o papel da escola como espaço de aprendizagem para a vida. Ela ajuda a transformar acesso em compreensão, informação em conhecimento e tecnologia em possibilidade de participação. Em contextos de desigualdade, isso faz ainda mais diferença, porque amplia caminhos e reforça a escola como lugar onde todos podem aprender e se desenvolver.



