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Quem é o profissional da Educação Especial?

Publicado em

27 jan 2026

O professor da Educação Especial é um docente cuja atuação está voltada à garantia do direito à aprendizagem dos estudantes público-alvo da Educação Especial, por meio da eliminação de barreiras que dificultam o acesso, a participação e a aprendizagem no ensino regular. Seu trabalho é de natureza pedagógica e estratégica, envolvendo o planejamento de intervenções educacionais, a adaptação e produção de recursos, o uso de tecnologias assistivas e a atuação colaborativa com professores, gestores e demais profissionais da escola. Ele  atende individualmente o aluno,  contribuindo para a construção de práticas inclusivas que fortalecem a escola como um espaço de diversidade, equidade e pertencimento.

O profissional da Educação Especial incentiva o aprendizado e elimina barreiras que dificultam a participação do público alvo.

Fonte: br.freepik.com

O que é necessário para se tornar um professor da Educação Especial?

Para tornar-se professor da Educação Especial, é necessário:

  • Possuir formação docente, por meio de licenciatura;
  • Realizar formação específica na área de Educação Especial, que pode ocorrer por:
    • Licenciatura em Educação Especial; ou
    • Licenciatura em outra área acrescida de especialização, pós-graduação ou formação continuada na área;
  • Desenvolver conhecimentos sobre:
    • Desenvolvimento humano e processos de aprendizagem;
    • Deficiências, transtornos do neurodesenvolvimento e altas habilidades/superdotação;
    • Legislação educacional e políticas públicas de Educação Inclusiva;
    • Acessibilidade curricular, desenho universal para a aprendizagem e tecnologia assistiva.
  • Manter postura ética e compromisso com a educação inclusiva;
  • Investir em atualização profissional contínua;
  • Atuar de forma colaborativa, reconhecendo que a inclusão é um processo coletivo e permanente.

Não confunda professor da Educação Especial e profissional de apoio escolar

Na organização de uma escola inclusiva, é fundamental compreender que o professor da Educação Especial e o profissional de apoio escolar exercem funções distintas, complementares e igualmente importantes, mas que não se confundem nem substituem. A confusão entre esses papéis é um dos principais fatores que fragilizam o atendimento educacional especializado e comprometem o direito à aprendizagem dos estudantes público-alvo da Educação Especial.

O professor da Educação Especial é um docente, com formação pedagógica específica, cuja atuação está diretamente relacionada ao ensino e à aprendizagem. Seu trabalho envolve a eliminação de barreiras ao currículo, o planejamento de estratégias pedagógicas inclusivas, a atuação no Atendimento Educacional Especializado (AEE), a produção e adaptação de recursos didáticos, o uso de tecnologias assistivas e a orientação aos professores da sala comum. Trata-se de uma função pedagógica, estratégica e formativa, voltada à promoção da autonomia, da participação e do desenvolvimento do estudante.

Já o profissional de apoio escolar atua na dimensão do cuidado e da acessibilidade funcional, oferecendo suporte em atividades básicas de vida diária, como higiene, alimentação, locomoção, organização de materiais e segurança, sempre que essas necessidades estiverem presentes. Sua atuação está prevista na legislação como um direito do estudante, mas não possui caráter pedagógico. O profissional de apoio não ensina conteúdos, não adapta atividades curriculares e não avalia a aprendizagem, tampouco substitui o professor ou o professor da Educação Especial.

O profissional de apoio escolar auxilia os estudantes na obtenção da acessibilidade funcional, mas não é responsável por ensinar ou planejar atividades.

Fonte: stock.adobe.com

Quando o professor da Educação Especial é deslocado para atividades de cuidado, ocorre desvio de função e empobrecimento das práticas pedagógicas inclusivas. Quando o profissional de apoio é utilizado como mediador pedagógico ou acompanhante exclusivo para ensinar conteúdos, há descaracterização de sua função e comprometimento do processo educativo. Em ambos os casos, a inclusão perde seu sentido formativo e passa a ser tratada como mera assistência.

AspectoProfessor da Educação EspecialProfissional de apoio escolar
Natureza da funçãoDocenteProfissional de apoio ao cuidado
FormaçãoFormação pedagógica específica (licenciatura em Educação Especial ou licenciatura com especialização na área)Formação voltada ao apoio e cuidado, conforme normativas do sistema de ensino
Dimensão de atuaçãoPedagógicaFuncional e assistencial
Foco principalEnsino, aprendizagem e desenvolvimento do estudantePermanência, segurança e dignidade do estudante
PlanejamentoPlaneja e executa intervenções pedagógicas inclusivasNão planeja ações pedagógicas
Relação com o currículoAtua na eliminação de barreiras ao currículo, adapta materiais e estratégiasNão adapta conteúdos ou atividades curriculares
Espaços de atuaçãoAEE (sala de recursos multifuncionais) e atuação colaborativa na sala comumSala de aula e demais espaços escolares, conforme necessidade
Atividades desenvolvidasOrientação pedagógica, uso de tecnologias assistivas, adaptação de recursos, assessoria à equipe escolarApoio em higiene, alimentação, locomoção, organização de materiais e segurança
Avaliação da aprendizagemContribui para o processo avaliativo pedagógicoNão avalia aprendizagem
Substituição de funçõesNão substitui o professor regente nem atua como cuidadorNão substitui professores nem atua como mediador pedagógico

Diferentes formas de atuação do profissional da Educação Especial

O profissional da Educação Especial atua de maneira transversal, colaborativa e estratégica. Suas principais formas de atuação incluem:

  1. Atendimento Educacional Especializado (AEE): Atua em salas de recursos multifuncionais ou outros espaços pedagógicos, oferecendo atendimento complementar ou suplementar ao ensino regular.
  2. Atuação colaborativa com professores da sala comum: Trabalha em parceria com professores regentes, auxiliando no planejamento pedagógico, na adaptação de atividades, na diversificação de estratégias didáticas e na avaliação dos estudantes.
  3. Formação continuada de professores e equipes escolares: Atua como formador, promovendo estudos, orientações pedagógicas, discussões de casos e reflexões coletivas sobre práticas inclusivas, legislação e estratégias de ensino acessível.
  4. Assessoria pedagógica à gestão escolar: Colabora com gestores na organização de tempos, espaços, recursos e políticas internas de inclusão, contribuindo para a construção de uma cultura escolar inclusiva.
  5. Articulação com famílias e rede de apoio: Participa do diálogo com famílias e com outros serviços (saúde, assistência social, centros especializados), sempre respeitando os limites éticos e pedagógicos da atuação escolar.
  6. Produção e adaptação de materiais acessíveis: Desenvolve ou adapta recursos pedagógicos acessíveis, considerando diferentes linguagens, suportes e tecnologias.

 

Ferramentas e estratégias utilizadas pelo profissional da Educação Especial

O trabalho desse profissional é sustentado por um conjunto diversificado de ferramentas pedagógicas e estratégias didáticas, entre as quais se destacam:

  • Tecnologias Assistivas: recursos e serviços que ampliam habilidades funcionais, como softwares leitores de tela, ampliadores, pranchas de comunicação alternativa, materiais táteis, recursos de baixa tecnologia e dispositivos digitais;
  • Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA): uso de símbolos, imagens, gestos, aplicativos e sistemas que favorecem a comunicação de estudantes com dificuldades na linguagem oral;
  • Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA): planejamento pedagógico que prevê múltiplas formas de apresentação dos conteúdos, engajamento dos estudantes e expressão das aprendizagens;
  • Plano de Ensino Individualizado (PEI): instrumento de gestão pedagógica que tira a inclusão do papel, funcionando como um roteiro personalizado para o estudante. O PEI é um documento dinâmico, elaborado colaborativamente entre professores regentes e especialistas, que mapeia as potencialidades, os marcos de desenvolvimento e as metas específicas de aprendizagem para cada período letivo.
  • Avaliação pedagógica funcional: análise contínua das potencialidades e necessidades educacionais do estudante, focada no processo e não apenas no resultado;
  • Adaptação e flexibilização curricular: ajustes nos objetivos, conteúdos, metodologias e formas de avaliação, respeitando o currículo comum e garantindo equidade;
  • Ensino estruturado e ensino colaborativo, quando necessário, sempre evitando práticas segregadoras;
  • Uso de metodologias ativas, recursos multimodais e materiais concretos que favoreçam a participação e o protagonismo do estudante.

Desafios enfrentados pelo Brasil na efetivação da Educação Inclusiva

Apesar dos avanços legais e conceituais, a consolidação da educação inclusiva no Brasil ainda enfrenta desafios estruturais, pedagógicos, culturais e políticos. A existência de leis não garante, por si só, a efetivação de direitos. Entre o que está normatizado e o que acontece cotidianamente nas escolas, há um distanciamento que precisa ser analisado com honestidade e responsabilidade.

Desigualdades regionais e estruturais

O Brasil é marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, que se refletem diretamente na oferta da educação inclusiva. Muitas redes de ensino ainda carecem de infraestrutura acessível, como rampas, banheiros adaptados, sinalização tátil e recursos de acessibilidade comunicacional. Em diversos contextos, especialmente em regiões mais vulneráveis, a escola sequer dispõe de espaços adequados para o Atendimento Educacional Especializado ou de materiais pedagógicos acessíveis.

Formação inicial e continuada de professores

Muitos cursos de licenciatura ainda tratam a educação inclusiva de forma superficial, desconectada da prática escolar. Como consequência, professores chegam à sala de aula inseguros, despreparados ou com concepções equivocadas sobre deficiência e inclusão. A formação continuada, quando existe, nem sempre dialoga com a realidade da escola ou promove mudanças efetivas nas práticas pedagógicas.

Fragilidade do trabalho colaborativo

Embora a legislação enfatize o trabalho articulado entre professores da sala comum e profissionais da Educação Especial, na prática esse diálogo ainda é frágil. A falta de tempo institucionalizado para planejamento coletivo, a sobrecarga de tarefas e a lógica individualizante do trabalho docente dificultam a construção de práticas colaborativas.

Cultura escolar excludente e barreiras atitudinais

 As barreiras atitudinais, muitas vezes são invisíveis, mas profundamente enraizadas. Expectativas baixas em relação aos estudantes público-alvo da Educação Especial, resistência às adaptações pedagógicas e concepções meritocráticas de ensino ainda persistem em muitas escolas.

Gestão escolar e políticas públicas descontínuas

A efetivação da educação inclusiva depende de uma gestão escolar comprometida e de políticas públicas contínuas. No entanto, o Brasil enfrenta a descontinuidade de programas, mudanças frequentes de diretrizes e instabilidade no financiamento das políticas educacionais. Sem planejamento de longo prazo, acompanhamento sistemático e avaliação das ações, a inclusão corre o risco de se tornar dependente de iniciativas individuais, e não de uma política de Estado.

Tensão entre discurso e prática

Muitas escolas se autodeclaram inclusivas, mas mantêm currículos rígidos, avaliações padronizadas e práticas pedagógicas excludentes. Essa contradição gera frustração entre professores, gestores, famílias e estudantes.

Expansão das matrículas e descompasso na contratação

Enquanto as matrículas de estudantes público-alvo da Educação Especial crescem de forma contínua na rede regular, a contratação de professores especializados ocorre de maneira lenta, muitas vezes condicionada a restrições orçamentárias ou à ausência de concursos públicos específicos. Em diversas redes de ensino, a demanda é suprida por meio de contratos temporários, acúmulo de funções ou designação de professores sem formação adequada, o que fragiliza a política inclusiva e compromete o direito dos estudantes ao atendimento qualificado.

A quantidade de professores da Educação Especial

Os dados do Censo Escolar, realizado anualmente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), indicam que há um contingente relevante de docentes atuando na Educação Especial, sobretudo no Atendimento Educacional Especializado. Em 2014 haviam 97,1 mil docentes especializados (4,4% do total de professores). Este total passou para 151,3 mil docentes, o que equivale a 6,4% dos docentes no país. Ainda assim, esse número é insuficiente para atender à diversidade e à complexidade das demandas existentes. Mesmo com o aumento no número de profissionais, não foi possível acompanhar o crescimento de matrículas de estudantes público alvo, que era de aproximadamente 930,6 mil em 2014 e passou para 2,07 milhões em 2024. Isso fez com que a proporção de 1 professor para cada 9 alunos em 2014 passasse para 1 professor para cada 13 alunos em 2024.

Distribuição desigual e sobrecarga de atuação

Um dos principais problemas não está apenas na quantidade absoluta de professores da Educação Especial, mas na distribuição desigual desses profissionais entre redes, regiões e escolas. Em muitos municípios há poucos docentes especializados para atender um número elevado de estudantes. Dados do Censo Escolas de 2024 mostram que apenas 20,5% das escolas brasileiras apresentam AEE e que cerca de 568 municípios não registraram nenhum atendimento educacional especializado. As regiões com menores ofertas são Nordeste (17,4%) e Sudeste (18,1%). Isso resulta em:

  • Atendimentos fragmentados ou reduzidos;
  • Excesso de estudantes sob responsabilidade de um único professor;
  • Dificuldade de acompanhamento pedagógico sistemático;
  • Limitação do trabalho colaborativo com professores da sala comum.

Essa realidade compromete a qualidade do Atendimento Educacional Especializado e reforça a percepção equivocada de que a inclusão é inviável, quando, na verdade, o problema é estrutural.

A consolidação da Educação Inclusiva no Brasil exige  a ampliação de matrículas e a presença  de profissionais especializados. Ela demanda clareza conceitual, responsabilidade institucional e compromisso coletivo com práticas pedagógicas que reconheçam a diversidade como parte constitutiva da escola. Compreender quem é o professor da Educação Especial, valorizar sua formação, respeitar seus limites de atuação e diferenciá-lo corretamente do profissional de apoio escolar são passos essenciais para evitar improvisações que fragilizam o atendimento educacional especializado e comprometem o direito à aprendizagem dos estudantes.

Diante dos desafios estruturais, formativos e culturais ainda presentes, cabe à escola — especialmente aos gestores e professores — assumir a inclusão como um projeto pedagógico contínuo, e não como resposta emergencial às diferenças. Investir em trabalho colaborativo, planejamento intencional, formação permanente e políticas institucionais consistentes é reconhecer que a inclusão não se sustenta em ações individuais, mas em decisões coletivas. Afinal, a pergunta que permanece é: estamos organizando nossas escolas apenas para receber alunos diferentes ou para, de fato, ensinar todos eles com equidade, dignidade e qualidade?

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